quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

RETALHOS DA VIDA DE UM MARINHEIRO



Johns




Amigo Martins

Toda a minha vida foi de aventura e risco
Mas tive sempre uma protecção Divina que me acompanhou




Palavras do meu amigo Johns.


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JOHNS
ANTES DE SEGUIR PARA O ULTRAMAR




José António Fonseca  (Johns, seu nome de Guerra), natural de Torres de Moncorvo, foi à inspecção, para a Marinha, como voluntário, com 18 anos, em Junho de 1961.Em 16 de Setembro, assentou praça na Marinha, no Grupo 1 de Escolas da Armada, em Vila Franca de Xira.
Em 12 de Janeiro de 1962 foi o seu Juramento de Bandeira.
Foi-lhe atribuído o nº 1581 e mais tarde, com a revisão dos números de identificação, passou a ser o nº 7548, que manteve até final da sua carreira na Armada.

Após a recruta, alguns meses depois, ingressou no ITE (Instrução Técnica Elementar), da Escola de Artilharia, donde saiu Grumete Artilheiro Apontador.


Já como 2º Grumete Artilheiro Apontador, embarcou em diversos navios, onde também desempenhava as funções de Sapateiro!

Com algumas horas de navegação ingressou  no 1º Grau da Escola de Artilharia. donde saiu, após seis meses, Grumete Especialista Artilheiro Apontador.
Com o surgimento e evolução rápida de novas tecnologias, os nossos navios iam sendo adaptados às exigências de então. Por esse motivo, foi necessário adaptar também as guarnições a essas transformações. pelo que houve a necessidade de as instruir nas respectivas especialidades. O Johns passou então, na reconversão, a Marinheiro Artilheiro Preditor.

Antes e depois do 1º Grau andou embarcado em diversos navios.

Em 1962, foi destacado para o Navio Hidrográfico João de Lisboa.
Em 1963 foi transferido para o NRP "Nuno Tristão.", tendo seguido em comissão de serviço para a Guiné.
João de Lisboa
 (httpalernavios.blogspot.pt201003joao-de-lisboa.html)
Entre 31/12/64 e 01/01/65, a Nuno Tristão, durante a noite, subia o  Rio Gebadá, a fim de dar apoio a uma Companhia de Militares do Exercito, que se iria aquartelar no interior da Guiné. Durante a viagem foram surpreendidos de terra pelo fogo inimigo!!!  O amigo Johns entrou imediatamente na sua peça de artilharia, situada a meia-nau, para ripostar ao fogo inimigo, que se fez sentir, durante 40 minutos.
NRP "Nuno Tristão
'(httpgurupez.blogspot.pt)


Terminada a comissão de serviço, de dois anos, rumou à Base Naval de Lisboa, onde permaneceu, destacado, durante alguns meses, na Escutaria, tendo a seu cargo todo o armamento ligeiro.

Em princípios de 1967, seguiu com guia de marcha, para integrar a 1ª Guarnição da Fragata João Belo, de comboio, com mais cerca de 60 camaradas, par Nantes-França.

Nos princípios de Abril de 1967, o primeiro grupo, formado pelo Comandante, Imediato, Oficiais, Sargentos e alguns Praças das áreas técnicas e logísticas, chegou a Nantes, embarcado no NRP "S. Cristovão". Este navio (o ex-aviso "Bartolomeu Dias", convertido em "Hotel" flutuante), atracado à muralha quase no centro da cidade, a dois passos dos "Chantiers de l'Átlantique", o estaleiro onde a "João Belo", ainda assente em picadeiros, recebia os últimos acabamentos, seria o seu alojamento durante próximo de três meses até que a fragata estivesse em condições de o acolher. Depois, ao longo desse ano, chegariam em levas sucessivas, de comboio, os restantes elementos da guarnição.

NRP  "S. Cristovão"
('httpgurupez.blogspot.pt)




JOHNS 
O ( "Gringo", rebelde e ou impulsivo) !!!???




O Johns,embora alguns amigos o intitulassem de "Gringo", rebelde e ou impulsivo, tinha um coração de manteiga!!! Era amigo do seu amigo e prestável, tanto  a bordo com em terra, em defesa dos seus camaradas.
Durante a estadia em Nantes e Lorient,as relações de amizade entre marinheiros portugueses e franceses, era excelente, Juntavam-se  em terra, nas saídas nocturnas para beber uns copos e apreciar as meninas da noite. O amigo Johns,não era excepção!!!
Numa das saídas nocturnas, com um grupo de marinheiros franceses, depois de bem bebidos, claro que como por vezes acontecia, envolveram-se em desacatos nas ruas da noite de  Lorient,entre marinheiros portugueses, civis e marinheiros franceses.
O Grupo excedeu-se nos desacatos e foi solicitada a presença da Polícia Naval de França.
Os que foram apanhados, foram aconselhados a sair do local, mas o Johns,manteve-se barafustando!
Como estava renitente em obedecer às ordens da Polícia Naval, foi detido e transportado  para bordo da fragata.  Antes do Johns ter sido levado para bordo, já tinha havido troca de bonés com um marinheiro francês, apresentando-se ao Oficial de Dia, com um boné francês, com a fita da Fragata João Belo e bastante desarranjado!!!

Em 05/12/67, a Fragata João Belo, zarpou da base Naval de Lorient,rumo a Lisboa, onde chegou a 07/12/67, atracando no Cais Exterior da Doca da Marinha.
O Johns,manteve-se na guarnição da "João Belo,seguindo com ela para a 1ª Comissão de Serviço e viagem ao Oriente.

A navegar ou atracados, era hábito, nas horas vagas, o pessoal juntar-se na popa para conversar, contar umas anedotas e aventuras passadas em terra, onde não podia faltar o protagonista desta estória. Quase todos gostavam da presença do amigo Johns, pela maneira como ele se exprimia, de modo divertido, como ria e como contava anedotas ou cenas passadas em terra. Um dia numa destas reuniões de ócio, junto à noite e a navegar, o Johns,com  uns copitos a mais, enquanto a conversa decorria, lembra-se de repente de dizer que se ia matar e num ápice, lá estava ele agarrado ao
vergueiro com o corpo pendurado borda fora e a rir-se!!! Repetiu esta proeza algumas vezes, noutra ocasiões, o que deixava os amigos preocupados e apreensivos.
Certo dia, o amigo Johns,encontrava-se na sua peça de 100 mm, limpando a sua G3 e repentinamente desata aos tiros, tendo furado os tubos que eram utilizados para evitar a contaminação química e radioactiva e até para descontaminar!!!!
O Oficial de Serviço, amigo de todos, conseguiu evitar que o Johns fosse para o "Livro", livrando-o de um forte castigo!!!
Posso agora aqui mencionar o nome desse fantástico Oficial, que ainda hoje se recorda desse assunto e as dificuldades que teve para o safar!!! Era o 2º Tenente Manuel Henriques, ao qual aqui deixo um grande abraço.


O Grumete Electricista Tavares Augusto  felicita o amigo Johns





O Jonhs a bordo da Fragata João Belo






JOHNS 
E O SEU CASAMENTO, POR PROCURAÇÃO,  A BORDO DA 
FRAGATA JOÃO BELO!!!





















Concentração na distribuição do bolo de casamento!!!


Aerograma, modelo de carta gratuita, para os militares em comissão de serviço na guerra do ultramar, comunicarem com a Família sem custos 
                                                                                                                                                                                         
O Johns,quando seguiu para comissão no ultramar, deixou a sua namorada, Angélica, em Lisboa.
O namoro era feito por aerograma, correspondência gratuita naquela época, para as Forças Armadas.
Durante algum tempo de namoro, já em Angola, decidiram tratar da documentação para se casarem por procuração!!!
Depois de tudo tratado burocraticamente, só ficou para marcar a data do enlace!!!
As comunicações eram feitas via telefax,a cargo dos Sinaleiros. Entretanto foi comunicada, via telefax, a data do casamento, sendo a notícia recebida pelo Marinheiro Sinaleiro, Francisco da Cruz Remexido Senhorinho,que foi encarregue de comunicar ao noivo!!!  Estava-mos a navegar no Sul de Angola, rumo a Porto Alexandre, onde atracamos em 09/08/70, pelas 09H00, DOMINGO, quando o Senhorinho lhe entregou a comunicação da data marcada para o casamento.
Emocionado, o Johns,com a lágrima no canto do olho, agarrou-se ao Senhorinho, apertando-o com um grande abraço!!!
O Johns, não tinha muito tempo para celebrar em terra o seu dia de casamento, por procuração, porque nesse dia , zarpava-mos às 19h15,rumo ao Lobito, onde atracamos em 10/08/70, pelas 09H00.
Esta curta paragem,coincidiu casualmente ou não, com a data marcada para o casamento!!! Mesmo assim, ainda houve tempo, para os amigos o ajudarem na tarefa da boda e imediatamente se mobilizaram, para ajudar a preparar a celebração do acto. O evento iniciou-se ao almoço, com todos os requintes de um casamento presencial. Faltava lá muita coisa, mas tudo se improvisou!!!
 O Padrinho, já estava por ele escolhido. era o seu grande amigo, Aurélio Nunes Mendonça, 1º Cozinheiro. Foi ele quem confeccionou o bolo de casamento e preparou toda a boda para o noivo e seus convidados, amigos mais chegados.
Como nesse tempo não havia marinheiras a bordo, ninguém dos presentes se dispôs a fazer de noiva!!!  A Madrinha ainda se arranjou!!! Foi o seu amigo "Quintas", Marinheiro Artilheiro, que se fardou de branco tal como o noivo.
Nada faltou, até baile se improvisou!!!
Após as cerimónias principais a bordo, ainda deu tempo para festejar em terra,nos bares de Porto Alexandre, onde se beberam umas "Bazucas" (cerveja em garrafas de litro), para comemorar um acontecimento único, na história da Marinha de Guerra Portuguesa, que haja conhecimento.
A bordo da Fragata João Belo, nos seus 48 anos de vida, foi com certeza o único caso deste género!!!

A festa continuou, depois de zarpar-mos de Porto Alexandre, com um baile animado com musica reproduzida com aparelhagem de som comprada em Macau.
O noivo entrava de quarto às 04h00. enquanto se dançava,comia e bebia, alguém se lembrou de pregar a tradicional partida de casamento!!! Quando o noivo se foi deitar, tinha a cama com uma grande carga de açúcar!!! O rapaz não dormiu e às 04h00, estava a render o camarada!

José António Fonseca e Angélica Fonseca, ficaram casados oficialmente em 09/08/70
A Comissão de Serviço, terminou com a chegada da Fragata João Belo a Lisboa em 19/12/70, às 08h00.
Saliento que o Johns,cumpriu nove anos ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa. Ingressou  na Administração  do Porto de Lisboa de se manteve desde 1974 a 1990.

Saliento ainda que apesar da sua rebeldia, a esposa teve a paciência e inteligência de o transformar noutra pessoa muito diferente, para melhor
O Johns,aos poucos foi reconhecendo a razão da esposa e seguiu os seus conselhos e assim deu a volta por cima, tornando-se um homem pacato e muito amigo da sua esposa, com a qual ainda hoje vive com grande felicidade, amigos um do outro e com muita paz entre eles.

Termino o meu texto, felicitando  a Angélica.
Parabéns Angélica. Foste uma mulher de coragem, carinhosa, compreensiva, inteligente e paciente!!!

Muitos anos passados, a Angélica  faz uma grande homenagem ao seu marido, dedicando-lhe o poema, de sua autoria que passo a transcrever:


O nó do seu casamento
Despedida de solteiro!!!
Aplicação do cadeado da castidade!!! 


Partilha do bolo de casamento
O Johns com o cadeado da castidade!!!
O Américo cede "Cabeleira" a um camarada calvo




Convívio em um  dos Bares de Porto Alexandre, no Sul de Angola, a festejar o seu casamento em terra

POEMA DEDICADO AO AMOR DA MINHA VIDA  (FADO)

I
                              Presta atenção meu amor                          
                                  O que para ti vou cantar                                
                                  É uma prova de amor                                    
Que hoje te quero dar
II
Tu foste para a Marinha
Por ser esse o teu desejo
Do Alfeite a Vila Franca
Aprendeste a amar o Tejo
III
Do Tejo foste para o mar
Muitas milhas navegaste
Também conheces outros Rios
Mas para o Tejo voltaste
IV
Por muitos mares navegaste
Em muitos portos estiveste
Tiveste muitos amores
E grandes farras fizeste
V
 A vida de um marinheiro
 Todos sabem que é assim
Um amor em cada porto
Mas tu voltaste para mim
VI
Por todo este Mundo fora
Viveste o que não vivi
Mas nunca ninguém cantou
Um fado só para ti

VII
Do Grumete ao Comandante
Tu eras um bom amigo
Por isso quando te encontram
Todos querem estar contigo
VIII
De todos os filhos da escola
Do Manobra ao Fuzileiro
todos conhecem o Johns
Como amigo e companheiro 
IX
Da Guiná até à Austrália
Tiveste muita coisa boa
Mas acabaste a carreira
Cá no porto de Lisboa
X
Vives pertinho do Tejo
Num, belo e lindo lugar
Pois não serias feliz
vivendo longe do mar
XI
O tempo já se passou
Tens poucos cabelos brancos
És um "cota" bem charmoso
Pois ainda tens teus encantos
XII
De todas as aventuras
Tu tens a recordação
Mas tens o teu porto de abrigo
Dentro do meu coração
XIII
Agora que já te cantei
Já alegrei as vossas almas
Para todos os marinheiros
Peço uma grande salva de palmas.



Jonhns, Angélica e Senhorinho

Johns e Angélica, numa das visitas à Fragata João Belo


Johns, o Guionista, no 2º Encontro Nacional das Guarnições da Fragata João Belo, em Leiria




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